terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O 11º mandamento

Diante das cenas vivenciadas nos últimos anos acredito que se Deus resolvesse fazer as tábuas da lei hoje ele as faria com um mandamento extra, o 11º mandamento, o não te “bitolarás”.

Esta expressão cômica eu escutei de um professor numa aula inaugural em 2001 e desde então noto que apesar do contexto em que ele utilizou é algo que está cada vez mais evidente. Cada dia que se passa, cada lugar em que vou e cada pessoa que conheço me fazem crer ainda mais que há um excesso de bitolagem em diversos aspectos.

O que quero dizer por bitolagem nada mais é que um fanatismo ou ideologia exageradamente exagerado. De tal forma que chega a cegar o indivíduo e leva-o a caminhar sobre a tênue linha que divide a sanidade da loucura, e a correr relações.

De certa forma, a bitolagem está ligada a muitos “ismos”. Ismos políticos, filosóficos, sociais, ideológicos, religiosos, artísticos, esportivos, etc.; além de simples manias e muitas vezes frescuras. Muitos ismos são bem mais radicais que outros, o que não faz destes melhores, em essência, do que aqueles de formam que continuam corrompendo o ser.

Dentro da proporcionalidade acredito que se fizéssemos uma votação para elegermos a escória do fanatismo o campeão seria o terrorismo. Um fanatismo que mistura bitolagens religiosa, cultural, social, filosófica e política. Como dito anteriormente corrói relações e de forma drástica: degolando, explodindo, sequestrando, chantageando, e por aí vai.

De forma menos apelativa, em comparação ao terrorismo, temos um fanatismo forte que foi vivenciado recentemente no Brasil: o fanatismo político. Vivenciamos uma rixa entre PeTistas e PMDBistas. Óbvio que independente de sua posição política o fanatismo é desagrega mais que agrega. Vimos uma política mais uma vez corroída, preocupada em denegrir o outro e não em propor boas idéias e projetos. Vimos uma cisão da sociedade para defender pessoas que a ferro e fogo não estão nem aí para seus defensores. Estes bitolados estão presentes em massa nas redes sociais e vivem postando provas de tamanha cegueira.

Outro ismo muito comum é o do bitolado religioso. Quem nunca foi abordado por alguém ou por alguéns querendo doutrinar e inverter seus conceitos religiosos para outra religião ou crença? Veja, não estou segregando religiões ou crenças, mas sim falando de forma genérica que sempre há alguém olhando para o próprio umbigo e dizendo que o gramado do outro não é tão verde assim.

Na sociedade que tenho chamado de “geração bullying” tem um grupo de bitolados que são os bitolados de classes. Estão vinculados muitas vezes a minorias e que são tantas que a soma das minorias acaba sendo maior que maioria (estranho não?). Refiro-me aos fanáticos de movimentos feministas, machistas, homossexuais, heterossexuais, indígenas, negros, brancos, asiáticos, pobres, ricos, mineiros, nordestinos, paulistas, enfim, qualquer classe com um grupo de fanáticos falando asneiras por aí. Todos têm direitos e poucos têm deveres. E cada vez mais a situação aperta para a minoria exclusa das minorias. Quanto mais as ditas minorias reclamam mais a sociedade se dispersa, se divide em tribos e se perde o princípio do art. 5º da constituição que diz:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)

Extremamente irritantes são os bitolados fitness ou geração saúde. Estas pessoas tentam te impor o que, como e quando comer, beber e fazer. São megalomaníacos contemporâneos que acreditam compreender todas as nuances da natureza além das divinas. São muito vaidosos e inconsequentes por muitas vezes de modo que alguns são vítimas de seus próprios venenos surpreendidos por problemas de saúde ocasionados justamente pelo consumo inapropriado pregado por eles mesmos. Aqui também estão presentes os vegetarianos, orgânicos, diets, lights, low carbs, zero, fit, e mil outras palavras pequenas que querem dizer a mesma coisa.

Temos uma classe de bitolagem que é quase ímpar: os veganos. Até entendo a pessoa não comer carne, por não gostar ou por não querer, não importa o motivo de fato. Mas estas pessoas estão em um estágio próximo à comicidade. Não duvido que alguns bitolados não queiram nem mesmo andar para não esmagar microrganismos invisíveis a olho nu presentes no solo, ou nem mesmo evitar a luz para não “apagar os lumens”.

Não menos irritante temos os bitolados futebolísticos. No Brasil isto é constante. Cada estado tem o torcedor/torcida mais chato específico. Mas este bitolado é o que deixa de falar com a mãe por causa de futebol. Não se preocupa em trabalhar melhor ou evoluir por causa do futebol. Só pensa nisso o tempo todo... todo... todo... e mais um pouquinho. Este bitolado de fato é um bitolado esportivo e não necessariamente vinculado ao futebol, de modo que este se destaca principalmente no Brasil e em alguns outros países com grande popularidade futebolística.

Não posso esquecer os bitolados animais. Estas pessoas convivem com bixinhos de estimação, mas de forma até repugnante. A bitolagem cega a questão de higiene de modo que é comum ver um animal lambendo os genitais e em seguida a boca do cidadão sem grandes problemas, se isto não for algo anormal me desculpe, mas pra mim ainda é algo estranho. Não importa se o filho tem asma, o pelo do bixinho espalhado pela casa permanece. O cachorrinho tem que ter roupa e sapato (sapato, é...). Normalmente os seres tem nome de pessoas, apesar que já vi até gente com nome de cachorro... então deixa pra lá...

Enfim, o que quero dizer com isto tudo é que existem, sim, muitas formas de fanatismo. Em geral todas elas são prejudiciais, uma mais e outras menos. Todas elas são irritantes para as outras pessoas que não são bitoladas da mesma forma. Sei que não sou um ser perfeito e até tenho minhas manias e fanatismos, acho que todos têm, mas algumas pessoas estão de parabéns. E é importante lembrar que cada um fique em seu quadrado por mais difícil que seja aceitar que outra pessoa não concorde com seus pontos de vista em sentido amplo.


Dizem que se conselho fosse bom não seria dado, mas vendido. Normalmente vendo meus bons conselhos, mas este é de graça: não te bitole.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Quis custodiet ipsos custodes?

A famosa pergunta feita a Sócrates: "Quem guardará os guardiões?" - pois bem, vivenciamos diariamente situações onde nos deparamos com abuso de poder, prevaricação ou simples omissão entre os guardiões.

Hoje os principais jornais estão com uma notícia sobre a servidora pública, agente do Detran, que parou um juiz numa blitz da Lei Seca em 2011. Juiz este que deu voz de prisão para a servidora dizendo que a mesma cometeu desacato à sua autoridade. A agente, por sua vez, diz que o juiz agiu com abuso de autoridade.

Vejamos os fatos: o juiz foi parado numa blitz da Lei Seca sem licenciamento do veículo e sem CNH. A agente, que é paga com dinheiro público para fazer cumprir a lei, aplicou duas multas e mandou rebocar o veículo. O juiz então chama um policial militar e manda prendê-la.

Ora, não estou entrando no mérito do diálogo entre ambos, pois acredito que deve ter havido abuso de ambos os lados, mas se olharmos analiticamente veremos que no final das contas quem está certo é a agente que executou o seu trabalho da forma como devia fazê-lo.

Mas o desembargador que tomou a decisão de condená-la a pagar indenização ao juiz disse que "ela" foi quem agiu com abuso de poder mesmo sabendo da função pública desempenhada por ele. Ora, vamos lá, "abuso de poder" não deve ser praticado contra ninguém e não apenas a uma pessoa com função pública. O seu título, status ou profissão não deve interferir na atuação do agente.

Agora que entendemos o caso vou perguntar novamente, quem guardará os guardiões?

Tenho para comigo que a banalização do ensino superior se deu principalmente ao excesso de instituições de Direito no Brasil. É! Agora diversas pessoas estão a me condenar por esta frase. Mas vamos pensar mais uma vez. Em 1997, o personagem do Al Pacino no filme "O Advogado do Diabo" disse uma frase que ficou marcada em minha memória: "Sabia que há mais alunos de Direito que advogados sobre a Terra?".

Vejo este caso, dentre tantos outros, e fico confabulando sobre a que ponto chegamos. Mais uma vez me sinto como um alienígena. E mais uma vez gostaria de "descer" e mais uma vez fico com vergonha.





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Cadê você Democracia?!

Hoje é um dia diferente dos últimos dias. Hoje temos o resultado das eleições no Brasil e em especial no que diz respeito ao cargo de "presidente" da república.

Pois bem, normalmente eu sou o tipo de pessoa que se enquadra no grupo que tem "orgulho de ser brasileiro". Mas hoje não! Hoje eu não tenho orgulho de ser brasileiro. Não pelo Brasil, pela pátria, ou pela nação que por algumas vezes jurei defendê-la das mais variadas formas, e uma delas foi ontem, dia 26/10 exercendo meu direito de voto. Não tenho orgulho de ser brasileiro por ser incluindo no mesmo grupo e comparado com quase 55 milhões de pessoas que decidiram o rumo do Brasil. Hoje, eu me sinto enojado por ser brasileiro, por esta comparação e por tudo o que estamos vivendo. Sinto nojo de pessoas hipócritas que vivem ao meu redor e que se dizem mais brasileiros por cantar o hino, de pé, com a mão no peito, e por esboçar lágrimas antes de um jogo de futebol, mas que na hora em que o povo e a pátria mais precisam de seu apoio e seu amor pela nação, esquecem de tudo. Sinto nojo daqueles tantos milhares que manifestaram e repudiaram diversos atos públicos em meados de junho de 2013, em marchas e caminhadas contra a corrupção, em manifestações e vaias contra a "presidenTA", e que no fim das contas desejam que o país permaneça como está. Desejo este que foi concedido e será prolongado por mais quatro anos, seja bom, seja ruim.

Para os mais novinhos, gostaria de contar uma pequena estória, ou uma fábula talvez. Em 1964 houve um ato cívico-militar que durou mais de 20 anos. Durante estes 20 anos muita gente lutou, morreu e matou em busca da queda do regime militar e pela ressurgimento da democracia. Entre estas pessoas estavam nomes conhecidos como Lula e Dilma, que foram tidos heróis em sua época por defender a todo custo a democracia. O regime militar sucumbiu em 1985 e em 1988 já tínhamos uma nova constituição.

Hoje, quase 30 anos após a queda do regime militar, temos os mesmo nomes à frente: Lula e Dilma. Estes elevam mais o nome de sua instituição, o PT, do que os próprios nomes, então digamos, que o PT está à frente nos dias atuais. O PT, há 12 anos no poder, conseguiu mais 4 anos. Ou seja, 16 anos de um único governo, uma única vertente de pensamentos, um único caminho. Uma ditadura disfarçada de presidencialismo e acobertada pela democracia.

É curioso como as mesmas pessoas que lutaram para garantir a democracia são as que estão cerceando novamente o seu povo. Se observamos com cautela nota-se uma política manipulatória e para massa tal como era feito na ditadura. Nota-se também, o pão e circo com programas populares que mais aumentam a dependência familiar para com o governo e o circo dos palhaços que bancam por isto. Afinal, Ronald Reagan, que foi o responsável pelo período mais próspero dos Estados Unidos, devia estar errado quando disse: "Devemos medir o sucesso dos programas sociais pelo número de pessoas que deixa de recebê-lo e não pelo número de pessoas que são adicionadas".

Quanto a uma foto da "presidenTA" na época de militante e do termo "coração valente", acredito que não preciso comentar o quão ridículo isto soa. Fico até curioso para saber a reação pública internacional diante destes dois fatos.

Então, parabéns Dilma, você fez apenas o seu papel. E parabéns para você, eleitor, e em especial quem votou na Dilma pelo seu esplêndido voto. Parabéns também para 2,5 milhões de eleitores que fizeram a diferença nesta eleição e para os 30 milhões que preferiram deixar "o circo pegar fogo" e se absteram de votar. Graças a todos vocês, eu e provavelmente outros 50 milhões de pessoas, estão se sentido alienígenas e sem entender o quão imbecis algumas pessoas são. Pare o mundo que eu quero descer!

Por fim, a frase "penso, logo existo", não pode ser lida "existo, logo penso". Até batata existe e pelo visto pensa mais que muita gente.